25/11/14

Comfortably Numb

  
 

Veio um convite.
Sabia que o era porque lia “Convite” em letras redondas empoladas a prata. Tinha uma flor de tecido numa fita de cetim a colar-lhe as pontas, como lacre. Abriu-o como quem abre um cubo com sustos, daqueles com bonecos de mola que encerram um palhaço tirano com fome de espantar. Estava vazio de letras ou insinuação. Não tinha onde, quem e porquê. Não havia remetente, ementa ou Porto de Honra, não tinha como trajar, ou quando ir. Incomodou-o.

Depois veio uma caixa.
Descobriu que não o era porque quando desembrulhou o papel pardo, viu que  tinha forma de caixa mas não tinha tampa ou abas para abrir. Sentou-se nela.

Recebeu ao terceiro dia um copo de vidro grosseiro com uma palhinha em celofane. Encheu-o de água, soprou e deixou as mágoas borbulhar em jacuzzi.

Esperou e não chegou mais nada.

Um ano depois, recebeu um espelho partido.


Sem comentários:

Enviar um comentário