08/11/14

Bastidor






Hoje tinha sido muito importante para mim, ouvir-te. Ouvir-te muitas vezes a segurar-me para eu não escorregar trôpega,  a dizeres que me amas repetidamente ao ouvido,  ouvi-lo declamado, seguro e firme “Fico. Fica.”. Finco os dedos nos braços, nas pernas a aquecê-las e corá-las do frio, sem fio, exsangues. Hoje sinto-me uma Prima Donna de um dramalhão, posta em cena por engano numa opereta buffa. Se da plateia me olhasse, ria, mas eu no palco vestida e descalça para a catarse, sinto-me trágica a destoar do libretto e balbucio uns lamentos a soluçar staccatos enquanto à volta tudo é nonsense e há carrosséis com girafas e tendas de cambraia e xícaras de chá com pássaros gigantes a mergulhar nelas a pescar peixes com patas e bustos de Napoleão em gesso dançam a beijar meninas a sonhar com lábios de carne,  enquanto olho à volta e giro sobre mim de braços abertos no vazio na esperança de te encontrar mastro ou torreão de luz e pedra firme, e então apetece-me correr sem destino e só voltar quando o pano correr para o grand finale e me atirarem rosas ou tomates.


Picture Desiree Dolron Gaze study number 2


 

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