25/11/14

Comfortably Numb

  
 

Veio um convite.
Sabia que o era porque lia “Convite” em letras redondas empoladas a prata. Tinha uma flor de tecido numa fita de cetim a colar-lhe as pontas, como lacre. Abriu-o como quem abre um cubo com sustos, daqueles com bonecos de mola que encerram um palhaço tirano com fome de espantar. Estava vazio de letras ou insinuação. Não tinha onde, quem e porquê. Não havia remetente, ementa ou Porto de Honra, não tinha como trajar, ou quando ir. Incomodou-o.

Depois veio uma caixa.
Descobriu que não o era porque quando desembrulhou o papel pardo, viu que  tinha forma de caixa mas não tinha tampa ou abas para abrir. Sentou-se nela.

Recebeu ao terceiro dia um copo de vidro grosseiro com uma palhinha em celofane. Encheu-o de água, soprou e deixou as mágoas borbulhar em jacuzzi.

Esperou e não chegou mais nada.

Um ano depois, recebeu um espelho partido.


19/11/14

A ode à borboleta.



Há sempre um primeiro beijo.
Há os que colocámos legenda e os esfumados no tempo pelos quais debutámos em qualquer coisa maior. Talvez mais que o nome ou rosto que os emoldurou, relembram-nos o quão tantalizador é o momento que precede todos os outros, assim, numa espécie de nostalgia de bruaá cá dentro.

Há sempre um primeiro toque.
O cheirar perto a antecipar o gosto no entreabrir de lábios, sentir o relevo dos dentes e o adejar de línguas. Uma viagem a descobrir o jeito, os lentos, os arranques, um passeio com pausas para a fotografia enquanto expiramos fundo para arejar as volutas de calor ao passar cruzamentos de narizes canhotos...

Há-os dados em alta definição esbugalhados de surpresa ou inebriados, cerrados num coleante rastejar lânguido ou outras vezes, em arremesso sôfrego enrolados em carne e saliva. Alguns acontecem  na rua, no sofá, às claras. Uns roçam o desafio e carburam a tesão. Há-os roubados a apanhar algo do chão, os que nos esticam e esmagam contra uma parede, os de olhos nos olhos em romântica vertigem estrábica.  Houve-os de mãos que sobem do pescoço à nuca, os do slow, os dados em antecipação no prenúncio de outros molhados ou trocados naquele cruzar fugidio de passa - não passa.
Há-os cegos e surdos na entrega e aqueles extraordinariamente convictos que evangelizam.

E alguns, alguns, impregnam tanto que ficam.



16/11/14

Carnet de Bal




Estava ali quando as colunas na praça rugiram um tango. Levantou-se do murete da fonte ajeitando o seu ataviado bem-posto. Pousou o chapéu e lançou-se em deleite romântico num pax de deux que o fazia esvoaçar sem tempo nem gravidade. Os olhos vidraram flumíneos e piscos enquanto, seguro nos passos, a conduziam firmes num enlace justo que a fazia levitar, transparente.

Os outros velhos sentados em tertúlia continuaram sem que parecesse surpreendê-los que o seu par, Ela, nunca tivesse sido perdida.
Só eu, tonta sem ter entendido, sorri.


08/11/14

Bastidor






Hoje tinha sido muito importante para mim, ouvir-te. Ouvir-te muitas vezes a segurar-me para eu não escorregar trôpega,  a dizeres que me amas repetidamente ao ouvido,  ouvi-lo declamado, seguro e firme “Fico. Fica.”. Finco os dedos nos braços, nas pernas a aquecê-las e corá-las do frio, sem fio, exsangues. Hoje sinto-me uma Prima Donna de um dramalhão, posta em cena por engano numa opereta buffa. Se da plateia me olhasse, ria, mas eu no palco vestida e descalça para a catarse, sinto-me trágica a destoar do libretto e balbucio uns lamentos a soluçar staccatos enquanto à volta tudo é nonsense e há carrosséis com girafas e tendas de cambraia e xícaras de chá com pássaros gigantes a mergulhar nelas a pescar peixes com patas e bustos de Napoleão em gesso dançam a beijar meninas a sonhar com lábios de carne,  enquanto olho à volta e giro sobre mim de braços abertos no vazio na esperança de te encontrar mastro ou torreão de luz e pedra firme, e então apetece-me correr sem destino e só voltar quando o pano correr para o grand finale e me atirarem rosas ou tomates.


Picture Desiree Dolron Gaze study number 2