31/10/14

The curator






Tinha uma caixa de cheiros. 
Coleccionava essências destiladas da passagem das mulheres e homens na sua vida. Nem todos o faziam sorrir, mais ainda pesava-lhe senti-los delir sem que tivesse consentido deixá-los desmaiar ou transmutar em eflúvios amarelecidos a cheirarem a nada, anódinos. Resolveu como substituto coleccionar sons, gravar campainhas de porta, atendedores de chamada, ranger das camas, a cadência única de um passo…

Perguntou-me se achava isto patético. Achei que não.

Entendo esse encasular de emoções com assinatura e marca indelével que experimenta clonar momentos. Sei que cheirar-a-ti e a sugestão do teu sopro me propaga  na pele e pulso uma relevante intensidade desses muitos instantes capturados e, ouvindo-o, imaginei que poderia orquestrar-te com vários recursos numa vibrante Variação.


Image by Renato D'Agostin

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