31/10/14

The curator






Tinha uma caixa de cheiros. 
Coleccionava essências destiladas da passagem das mulheres e homens na sua vida. Nem todos o faziam sorrir, mais ainda pesava-lhe senti-los delir sem que tivesse consentido deixá-los desmaiar ou transmutar em eflúvios amarelecidos a cheirarem a nada, anódinos. Resolveu como substituto coleccionar sons, gravar campainhas de porta, atendedores de chamada, ranger das camas, a cadência única de um passo…

Perguntou-me se achava isto patético. Achei que não.

Entendo esse encasular de emoções com assinatura e marca indelével que experimenta clonar momentos. Sei que cheirar-a-ti e a sugestão do teu sopro me propaga  na pele e pulso uma relevante intensidade desses muitos instantes capturados e, ouvindo-o, imaginei que poderia orquestrar-te com vários recursos numa vibrante Variação.


Image by Renato D'Agostin

26/10/14

Rosas







Era uma mancha escura em movimento lento pontilhada de fios grisalhos apanhados em puxos curvados por olhos postos no chão ou ao alto, rasos de água, abafados sem som nem convulsão de soluços. Havia entre eles, no meio das gentes, alguém que levava entre braços uma malinha de mão pesada que não largava nem queria partilhar o fardo. Segurava nela com as duas mãos o peso do pesar que trazia dentro de si. Só seu. Levava agarrado, parecia, o conforto e segurança do que ainda se reconhece, baluarte embalado no compasso do seu cortejo, na cadência dolente do entrançado desfeito dos cabelos prata e ouro, longos, antigos, onde cabia ainda a memória dos dedos dele em vida.

Hoje era assim. Amanhã, não sabia. Amanhã era o dia depois de todas as bodas juntos.

Sinto tanto meu bem. Lamento. Sinto até porque não sentes já. Sinto por ti que deixaste de sentir. Tu que devias poder sentir tudo. Sinto o triste de teres dito adeus há tanto tempo que hoje, dia de vela, não há despedidas para ti, não há rito de partida, essa aconteceu devagar por tanto tempo que, hoje, não há presente para carpir.

É um choro seco de alívio triste, libertador. Sinto o luto do virar dos dias que hão-de vir...
A morte, vivo-a por ti. Velo-te. Sei que não poderás fazê-lo por mim.