27/05/14

Desalinhada

  
 


 
Sentar-me a fugir dos teus olhos quentes, do teu hálito morno, dos teus dedos em lume brando e sentir-me derreter, a saber que à distância de um impulso podes saltar e tornares-me um doce de colher.



 

22/05/14

Ao toque de caxemira na pele



Estou a caminho. Espero-te ali, depois de virar aquela curva com relevé centrífugo e sair disparada até ricochetear no teu peito que amortece o golpe e por onde deslizo em refluxo a ressacar no teu ombro, queria-o esponja e ensopá-la. Que não a espremesses para não perderes uma gota de mim, as que contêm os meus seminais, desovas da minha penumbra. Fazeres delas lago. Beijo-te com as duas mãos em concha a emoldurar-te o rosto, a atracá-lo ao meu como barca a pontão. Olhar-te os olhos verde-algas, deixá-las amarrar-me as pernas os braços, afundar-me em oblívio e ganhar guelras para respirar no teu fundo denso. Alapar-me e ser levada na corrente e tirares-me o peso, amoleceres-me a casca e me deixares  esvoaçar como medusa. Acolhe-me e alimenta-me de plâncton, dos ínfimos de pequenos tudos. Abro e fecho a boca como peixe sem som, inundo-a de ar, transformo-me em bolha espero que me entendas no meu ir e vir sem nexo, ensandecido por ter passado para dentro dela por osmose e rodar como ponteiro contra o tempo em voltas ao avesso num aquário em forma de malga.
Olha-me com lupa e vê-me gesticular lá dentro a olhar-te por uma grande angular que te transforma  num grande nariz e rio-me por to querer mordiscar enquanto espero, sentada numa poltrona de areia que criei a partir das miríades que lasquei em madre-pérola, que me inspires.
...Se me espirrares, volta por favor num redondinho, ao princípio do texto...

07/05/14

Sem espólio.



Vejo-te chegar. Ruges hurras à passagem, dás passos a fazer tremer o chão.
Sim, os bichos fogem, és o lobo do homem. És um e sem seres, sentes-te mil.
Vem! Desafio-te. Chega a mim num batalhão.

Aviso-te que me blindei, que não me fazes vacilar. Não me trespassas, não passas. Hoje nada podes. Mas vá, vieste, arremete então. Aponta e atira. Satisfaz a ânsia de deixares como touro o teu rasto e nuvem de pó no chão, no ar depositado em mim que não me faz pestanejar. Esgota as forças. Dá tudo. Lança-me chamas, charme. Investe! 
Sentes a náusea do esforço? A cãibra a tolher-te? Ensopaste-te em suor, esse que te oxida em ferrugem estaladiça o tronco? Olha-me! Vê-me indemne. Repara, não sorrio, não derramo choro a hidratar a terra. Queimei-a entre nós, ficou estéril cultivada com escorrer do teu sal.  Não existo aí onde me defrontas, não me vergas porque não tenho mais corpo para dobrar e morderes a nuca. És um Homem sem lobo, sem batedor nem faro e não tens mais como seguir-me.
É agora que, sem perdão nem prisioneiros, te deixo partir. Levanta-te! Parte. Silencia a derrota e lambe exausto os pulsos já sem empunharem  mangual. Apazigua-te. Nada temas. Segue sem medo, não dou ao arauto anunciar solene a tua vergonha.

Vai, não hesites nem olhes para trás.  Mas entende bem, nada mais há a ganhar aqui.


Faca 2005 Photo by Duarte Belo