30/05/17

Personificação




Se eu fosse um pin de bowling não gostaria que escrevessem um post sobre os meus afectos.

Se fosse uma bola de bowling, também não…




25/11/14

Comfortably Numb

  
 

Veio um convite.
Sabia que o era porque lia “Convite” em letras redondas empoladas a prata. Tinha uma flor de tecido numa fita de cetim a colar-lhe as pontas, como lacre. Abriu-o como quem abre um cubo com sustos, daqueles com bonecos de mola que encerram um palhaço tirano com fome de espantar. Estava vazio de letras ou insinuação. Não tinha onde, quem e porquê. Não havia remetente, ementa ou Porto de Honra, não tinha como trajar, ou quando ir. Incomodou-o.

Depois veio uma caixa.
Descobriu que não o era porque quando desembrulhou o papel pardo, viu que  tinha forma de caixa mas não tinha tampa ou abas para abrir. Sentou-se nela.

Recebeu ao terceiro dia um copo de vidro grosseiro com uma palhinha em celofane. Encheu-o de água, soprou e deixou as mágoas borbulhar em jacuzzi.

Esperou e não chegou mais nada.

Um ano depois, recebeu um espelho partido.


19/11/14

A ode à borboleta.



Há sempre um primeiro beijo.
Há os que colocámos legenda e os esfumados no tempo pelos quais debutámos em qualquer coisa maior. Talvez mais que o nome ou rosto que os emoldurou, relembram-nos o quão tantalizador é o momento que precede todos os outros, assim, numa espécie de nostalgia de bruaá cá dentro.

Há sempre um primeiro toque.
O cheirar perto a antecipar o gosto no entreabrir de lábios, sentir o relevo dos dentes e o adejar de línguas. Uma viagem a descobrir o jeito, os lentos, os arranques, um passeio com pausas para a fotografia enquanto expiramos fundo para arejar as volutas de calor ao passar cruzamentos de narizes canhotos...

Há-os dados em alta definição esbugalhados de surpresa ou inebriados, cerrados num coleante rastejar lânguido ou outras vezes, em arremesso sôfrego enrolados em carne e saliva. Alguns acontecem  na rua, no sofá, às claras. Uns roçam o desafio e carburam a tesão. Há-os roubados a apanhar algo do chão, os que nos esticam e esmagam contra uma parede, os de olhos nos olhos em romântica vertigem estrábica.  Houve-os de mãos que sobem do pescoço à nuca, os do slow, os dados em antecipação no prenúncio de outros molhados ou trocados naquele cruzar fugidio de passa - não passa.
Há-os cegos e surdos na entrega e aqueles extraordinariamente convictos que evangelizam.

E alguns, alguns, impregnam tanto que ficam.



16/11/14

Carnet de Bal




Estava ali quando as colunas na praça rugiram um tango. Levantou-se do murete da fonte ajeitando o seu ataviado bem-posto. Pousou o chapéu e lançou-se em deleite romântico num pax de deux que o fazia esvoaçar sem tempo nem gravidade. Os olhos vidraram flumíneos e piscos enquanto, seguro nos passos, a conduziam firmes num enlace justo que a fazia levitar, transparente.

Os outros velhos sentados em tertúlia continuaram sem que parecesse surpreendê-los que o seu par, Ela, nunca tivesse sido perdida.
Só eu, tonta sem ter entendido, sorri.


08/11/14

Bastidor






Hoje tinha sido muito importante para mim, ouvir-te. Ouvir-te muitas vezes a segurar-me para eu não escorregar trôpega,  a dizeres que me amas repetidamente ao ouvido,  ouvi-lo declamado, seguro e firme “Fico. Fica.”. Finco os dedos nos braços, nas pernas a aquecê-las e corá-las do frio, sem fio, exsangues. Hoje sinto-me uma Prima Donna de um dramalhão, posta em cena por engano numa opereta buffa. Se da plateia me olhasse, ria, mas eu no palco vestida e descalça para a catarse, sinto-me trágica a destoar do libretto e balbucio uns lamentos a soluçar staccatos enquanto à volta tudo é nonsense e há carrosséis com girafas e tendas de cambraia e xícaras de chá com pássaros gigantes a mergulhar nelas a pescar peixes com patas e bustos de Napoleão em gesso dançam a beijar meninas a sonhar com lábios de carne,  enquanto olho à volta e giro sobre mim de braços abertos no vazio na esperança de te encontrar mastro ou torreão de luz e pedra firme, e então apetece-me correr sem destino e só voltar quando o pano correr para o grand finale e me atirarem rosas ou tomates.


Picture Desiree Dolron Gaze study number 2


 

31/10/14

The curator






Tinha uma caixa de cheiros. 
Coleccionava essências destiladas da passagem das mulheres e homens na sua vida. Nem todos o faziam sorrir, mais ainda pesava-lhe senti-los delir sem que tivesse consentido deixá-los desmaiar ou transmutar em eflúvios amarelecidos a cheirarem a nada, anódinos. Resolveu como substituto coleccionar sons, gravar campainhas de porta, atendedores de chamada, ranger das camas, a cadência única de um passo…

Perguntou-me se achava isto patético. Achei que não.

Entendo esse encasular de emoções com assinatura e marca indelével que experimenta clonar momentos. Sei que cheirar-a-ti e a sugestão do teu sopro me propaga  na pele e pulso uma relevante intensidade desses muitos instantes capturados e, ouvindo-o, imaginei que poderia orquestrar-te com vários recursos numa vibrante Variação.


Image by Renato D'Agostin

26/10/14

Rosas







Era uma mancha escura em movimento lento pontilhada de fios grisalhos apanhados em puxos curvados por olhos postos no chão ou ao alto, rasos de água, abafados sem som nem convulsão de soluços. Havia entre eles, no meio das gentes, alguém que levava entre braços uma malinha de mão pesada que não largava nem queria partilhar o fardo. Segurava nela com as duas mãos o peso do pesar que trazia dentro de si. Só seu. Levava agarrado, parecia, o conforto e segurança do que ainda se reconhece, baluarte embalado no compasso do seu cortejo, na cadência dolente do entrançado desfeito dos cabelos prata e ouro, longos, antigos, onde cabia ainda a memória dos dedos dele em vida.

Hoje era assim. Amanhã, não sabia. Amanhã era o dia depois de todas as bodas juntos.

Sinto tanto meu bem. Lamento. Sinto até porque não sentes já. Sinto por ti que deixaste de sentir. Tu que devias poder sentir tudo. Sinto o triste de teres dito adeus há tanto tempo que hoje, dia de vela, não há despedidas para ti, não há rito de partida, essa aconteceu devagar por tanto tempo que, hoje, não há presente para carpir.

É um choro seco de alívio triste, libertador. Sinto o luto do virar dos dias que hão-de vir...
A morte, vivo-a por ti. Velo-te. Sei que não poderás fazê-lo por mim.


10/06/14

Soothing





Ontem sonhei que não me querias bem.

Disseste-o ao telefone enquanto atravessava o jardim  do Alto de Santo Amaro depois de ter saído sozinha de um qualquer restaurante que não vem no mapa. Liguei-te e respondeste-me que éramos uma perda de tempo. Não acreditei. Tornaste-te mais credível. Magoaste-me. Desliguei o telefone. Liguei de novo. Atendeste. Argumentei porque não concordava.  Não te convenci. Acabei irada. Estava a chover. Escorria gotas salgadas pelo rosto. Desliguei. Liguei de novo. Tentei provar-me. Tornaste-te condescendente. Achei-te aberrante e desliguei. Pensei pedir um intervalo ao sonho. Engasguei-me em soluços (antes te insultasse). Chorei tanto que acordei com beicinho. Estavas aninhado a mim com o teu nariz a cair da minha nuca ao pescoço. Apeteceu-me acordar-te e insultar-te pelo sonho. Virei-me e fiz barulhos. Enconchaste-me mais. Deixei de me conseguir  mexer com descair íngreme do teu corpo a paralisar o meu. Empurrei-te. Não deixaste.  Afastei-te o rosto para o lado e deste-me beijinhos na mão.
Deixei ficar a mão.
Deste mais beijinhos.

Pronto. 'Tá bem. Já passou.


"Chá, bolachas e caxemira" by ATP

27/05/14

Desalinhada

  
 


 
Sentar-me a fugir dos teus olhos quentes, do teu hálito morno, dos teus dedos em lume brando e sentir-me derreter, a saber que à distância de um impulso podes saltar e tornares-me um doce de colher.



 

22/05/14

Ao toque de caxemira na pele



Estou a caminho. Espero-te ali, depois de virar aquela curva com relevé centrífugo e sair disparada até ricochetear no teu peito que amortece o golpe e por onde deslizo em refluxo a ressacar no teu ombro, queria-o esponja e ensopá-la. Que não a espremesses para não perderes uma gota de mim, as que contêm os meus seminais, desovas da minha penumbra. Fazeres delas lago. Beijo-te com as duas mãos em concha a emoldurar-te o rosto, a atracá-lo ao meu como barca a pontão. Olhar-te os olhos verde-algas, deixá-las amarrar-me as pernas os braços, afundar-me em oblívio e ganhar guelras para respirar no teu fundo denso. Alapar-me e ser levada na corrente e tirares-me o peso, amoleceres-me a casca e me deixares  esvoaçar como medusa. Acolhe-me e alimenta-me de plâncton, dos ínfimos de pequenos tudos. Abro e fecho a boca como peixe sem som, inundo-a de ar, transformo-me em bolha espero que me entendas no meu ir e vir sem nexo, ensandecido por ter passado para dentro dela por osmose e rodar como ponteiro contra o tempo em voltas ao avesso num aquário em forma de malga.
Olha-me com lupa e vê-me gesticular lá dentro a olhar-te por uma grande angular que te transforma  num grande nariz e rio-me por to querer mordiscar enquanto espero, sentada numa poltrona de areia que criei a partir das miríades que lasquei em madre-pérola, que me inspires.
...Se me espirrares, volta por favor num redondinho, ao princípio do texto...